O atual cenário econômico brasileiro tem visto uma expansão significativa do crédito, mas esse crescimento traz consigo perigos silenciosos que podem comprometer o futuro financeiro de cidadãos e empresas. É vital compreender os riscos e adotar estratégias sólidas para evitar um ciclo de superendividamento com consequências duradouras.
Entre 2007 e 2025, o Brasil apresentou um crescimento médio de 1% ao mês no estoque total de crédito, alcançando o ápice em setembro de 2008 (3,7%) e o ponto mais baixo em janeiro de 2017 (-1%). Em setembro de 2025, o volume total de empréstimos pendentes atingiu R$ 6,8 trilhões em setembro, maior recorde desde dezembro de 2024.
No mesmo período, o crédito corporativo cresceu 1,7% em relação ao mês anterior e o crédito para famílias, 0,7%. Em base anual, o ritmo de expansão desacelerou de 10,4% em agosto para 10,1% em setembro de 2025, removendo um pouco do fôlego dos ciclos anteriores.
Esses números refletem tanto oportunidades quanto armadilhas: o acesso facilitado ao crédito pode impulsionar investimentos e consumo, mas também cria bolhas de liquidez e aumenta a vulnerabilidade em caso de reversão de ciclo.
Entre 2021 e 2024, o número de processos judiciais relacionados ao superendividamento cresceu impressionantes 8.530%, evidenciando uma crise profunda. No entanto, a taxa de procedência caiu de 79,2% para 46,7% no mesmo intervalo, dificultando a reparação judicial para os consumidores.
Os estados de Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro concentram o maior número de demandas e apresentam as maiores taxas de sucesso. Destaca-se que 85% dos processos envolvem bancos e instituições financeiras, com ênfase em casos de crédito consignado, especialmente entre servidores públicos e aposentados.
O resultado é um reflexo direto da falta de educação financeira e regulação insuficiente, agravado por juros elevados e práticas pouco transparentes.
O Brasil convive com juros reais persistentes entre 7% e 8% ao ano, sem ajuste fiscal efetivo que possa reduzir esse patamar. Em 2024, o pagamento de juros pelas empresas chegou a R$ 287,9 bilhões, aumento de 7,8% em relação ao ano anterior.
O crédito para famílias subiu 7,4%, totalizando R$ 2,22 trilhões, enquanto o crédito para empresas avançou 4,4%, atingindo R$ 1,64 trilhão. Esse cenário impulsiona o consumo financiado e aumenta a dependência ao sistema financeiro, tornando a economia mais frágil diante de choques externos.
O alto custo do crédito — cartão de crédito com juros elevados e taxas de cheque especial astronômicas — corrói a competitividade produtiva e reduz margens de lucro, impactando diretamente a geração de empregos e o investimento em inovação.
No primeiro trimestre de 2025, foram liberados R$ 38,3 bilhões em financiamentos imobiliários, um salto de 16,2% sobre o período anterior, com 109 mil imóveis financiados (+10%). Em 12 meses, a quantidade de imóveis financiados chegou a 578,1 mil, aumento de 25,1%.
Apesar da expansão, há um acúmulo de riscos: o aumento da oferta de crédito imobiliário pode levar a inadimplência crescente e à formação de bolhas regionais, especialmente em cidades de médio porte onde a regulação local é mais frágil.
Para pequenos negócios, a retração no apetite por novos empréstimos é evidente: apenas 15% dos empresários buscaram crédito nos últimos seis meses, índice mais baixo desde a pandemia. Entre aqueles que solicitaram financiamento, 48% obtiveram aprovação.
No mercado de crédito privado, com a Selic em 15%, o retorno passou a ser inferior ao dos títulos públicos, elevando o risco de calote e tornando esse segmento menos atrativo para investidores pessoa física.
A Lei 14.181/2021, conhecida como Lei do Superendividamento, busca proteger o consumidor e estabelecer princípios de prevenção, mas sua aplicação prática enfrenta obstáculos. O Decreto 11.150/2022 regulamenta dispositivos do Código de Defesa do Consumidor, criando mecanismos de conciliação e renegociação.
O Banco Central do Brasil, por sua vez, alterou regras de gestão de riscos em arranjos de pagamento, estabelecendo prazos de até 180 dias para responsabilização financeira dos agentes. Essas medidas são positivas, mas ainda insuficientes frente à velocidade de expansão do crédito.
Não existe gatilho claro para o comportamento futuro dos spreads bancários, que parecem ter atingido um limite inferior. A discussão sobre reforma tributária e a possibilidade de taxação mínima para pessoas físicas podem introduzir volatilidade adicional nos ativos isentos.
Adicionalmente, uma saída em massa de recursos de fundos de crédito poderia agravar tensões de liquidez, apesar de o mercado ainda dispor de amortecedores suficientes. As incertezas macroeconômicas globais — choques comerciais, ajustes fiscais e mudança de políticas do Federal Reserve — também afetam o cenário.
O superendividamento não é apenas um problema financeiro, mas uma questão social de grandes proporções. Milhões de brasileiros veem seu bem-estar comprometido, enfrentando limitações no acesso a serviços essenciais e na capacidade de planejar o futuro.
Esse padrão de endividamento é crônico e cíclico entre as faixas de renda mais vulneráveis, amplificado pelo crédito consignado com descontos automáticos em folha. A percepção de fragilidade financeira torna a recuperação mais lenta e traumática.
Para equilibrar a expansão do crédito e garantir a saúde financeira dos consumidores e do sistema, são necessárias ações coordenadas entre poder público, instituições financeiras e sociedade civil:
É urgente reforçar o compliance bancário e antecipar possíveis litígios de superendividamento, garantindo segurança jurídica para o setor financeiro sem prejudicar o consumidor.
Somente com um modelo de crédito responsável e políticas públicas eficazes poderemos construir uma economia mais resiliente, reduzindo a dependência excessiva do sistema financeiro e promovendo crescimento sustentável.
Referências